
Martin Luther King Jr.: Paz pela igualdade social
Imagine entrar em um ônibus para ir ao trabalho e, mesmo havendo cadeiras desocupadas, ser impedido de ocupá-las. Imagine estar dentro do mesmo ônibus, sentado, e ter de se levantar para dar lugar a outra pessoa, mais jovem e forte, sob pena de que chamem a polícia e o levem preso. Imagine ainda que, no mesmo ônibus, não só você, mas todas as pessoas que viajam na mesma fileira tenham de se levantar, para dar lugar a uma só pessoa, da qual você não tem sequer o direito de sentar ao lado.
A situação, constrangedora e humilhante pode parecer inverossímil nos dias de hoje. Mas não na região Sul dos Estados Unidos, em meados do século XX. A intimidação nos ônibus estava longe de ser a única manifestação racista nos EUA àquela época. Mas simbolizava como poucos fatos a persistência de uma sociedade dividida por um muro de preconceito, erguido a cada dia, institucionalizando a exclusão pela cor da pele. Mais que isso: a estereotipação e a subserviência impostas aos negros norte-americanos era de tal porte que podia ser comparada aos ditames do regime nazista alemão, com seus guetos e suas regras para arianos, verdadeiramente cidadãos, e judeus, a quem era negada a dignidade humana.
Foi nesse contexto segregacionista e desalentador que nasceu, aos 15 de janeiro de 1929, na cidade de Atlanta, Geórgia, Martin Luther King Jr. Filho dos pastores batistas Luther King e Alberta, que já tinham a pequena Cristina, de um ano e viviam na casa do pai de Alberta, o conhecido pastor Adam Daniel Williams, no centro da comunidade negra de Atlanta. O menino, aliás, chegou a ser registrado como Michael Luther King Jr, devido a um erro de cartório, só oficialmente reparado quando Martin já tinha seus 28 anos.
Em 1931, Adam Williams faleceu, ficando para o pastor Luther King pai a tarefa de assumir seu lugar. Seus filhos, Martin, Cristina e o caçula Alfred Daniel, tiveram conforto na infância, apesar da grande depressão financeira de 1929, com o crack da bolsa de Nova York. Com casa e carro próprios, destoavam da situação de desemprego e precariedade que acometia a maioria dos negros da cidade.
Mas essa situação privilegiada não impediu que Martin Jr. tivesse uma infância marcada por duas tentativas de suicídio, em dois momentos relacionados à sua avó, Jennie Williams. Primeiro, quando uma doença a deixou inconsciente. Depois, quando ela veio a falecer. Nas duas ocasiões, o garoto se atirou da janela de casa, do primeiro andar. E sofreu apenas escoriações sem maior gravidade.
Martin Jr. passou a freqüentar a escola pública em 1935, mudando depois para a particular Escola Experimental da Universidade de Atlanta. No secundário, freqüentou a Escola Booker T. Washington, quando a família já se mudara para uma área nobre da cidade, a Boulevard Street. Àquela altura, o trabalho do pai, Luther King, como pastor e membro dos diversos movimentos pró-negros, ganhava cada vez mais repercussão. Em contrapartida, ele passa a receber telefonemas e ameaças de morte, por parte da Ku Klux Klan, a temida organização criada após a guerra civil para disseminar o racismo e a intolerância, através de atos de selvageria e violência medieval contra os negros.
É nesse contexto que o jovem Martin toma cada vez mais consciência do ambiente de desigualdade que o cerca. Reflexões reforçadas após 1944, quando ele viaja para diversas cidades do Norte dos EUA (não encontrando ali sinais de racismo evidente, como o praticado no Sul do país) e ingressa no curso de Sociologia da Universidade Morehouse e passa a fazer parte das muitas discussões políticas no campus.
RESISTÊNCIA PACÍFICA
Não-violência ativa vence segregação racial e conquista direitos civis
Quatro anos depois, formado, MLK deixa Atlanta e vai para Chester, na Pensilvânia, cursar faculdade de teologia, enquanto continuava acompanhando os conflitos raciais latentes nos EUA após a Segunda Grande Guerra.
Teólogo graduado no início dos anos 50, Martin Jr. passa a estudar Filosofia na Universidade de Boston. É lá que conhece Coretta Scott, com quem se casaria em 1953. Um ano depois, inicia suas atividades como pastor da Igreja Batista da Av. Dexter, em Montgomery, no Alabama, em paralelo a seu trabalho de conscientização e luta pelos direitos civis. Em explícito contraste com o clima de terror e intimidação promovido pela Ku Klux Klan e pela própria polícia, que tinha entre seus membros vários integrantes da organização racista. Ainda em 1954, Martin Luther King Jr. assiste ao nascimento de sua primeira filha, Yolanda.
Em 1955, Martin Jr. finaliza o curso de Filosofia e vive de perto o segregacionismo predominante na cidade de Montgomey. Uma realidade de racismo institucionalizado, em normas como as do regulamento da companhia de ônibus - que forçava até mesmo os negros a subirem no veículo pela porta da frente, pagarem a passagem e descerem para ingressar pela porta de trás, sem que houvesse “incômodo” para os passageiros brancos ocupantes das primeiras filas..
A situação gera um sentimento de revolta calada, até que, em 1º de dezembro daquele ano, um episódio detona uma reação. Rosa Parks, uma costureira de 42 anos que saía cansada de um dia de trabalho, se recusa a se levantar de seu lugar, quando o motorista o solicita para um branco. Mesmo se tratando de uma senhora, o motorista pára o veículo e procura um policial, que pergunta a Rosa Parks por que ela se recusara a ceder seu lugar. “Eu achei que não era preciso”, respondeu, continuando: “Por que vocês nos perseguem?”. O policial retruca: “Eu não sei. Mas lei é lei e você está presa”.
Na prisão, Rosa é interrogada, por policiais ansiosos em associar seu gesto a um protesto pré-concebido. Ela nega: diz apenas que estava cansada e que seus pés doíam. Rosa só foi libertada sob fiança paga por E. D. Nixon, militante dos direitos civis, que imediatamente avisa a todas as associações e movimentos negros sobre o que ocorrera com a senhora. Surge a idéia de um boicote de todos os negros ao sistema de ônibus. Já a partir da semana seguinte, passariam a dividir táxis (de empresas dirigidas por negros) e mesmo a andar a pé quilômetros e quilômetros.
Caminhando não apenas por si, mas pela dignidade de seus filhos e netos, os negros fizeram do boicote um grande sucesso, que abalou a arrecadação da companhia de ônibus e mostrou à sociedade o poder do povo organizado. Com um importante diferencial: a reação à violência se dava não com mais agressividade, e sim através de um protesto pacífico, mas extremamente contundente e eficaz. Ao contrário do ceticismo das autoridades, que apostavam que no primeiro dia de chuva os negros retornariam aos ônibus, foram quase 400 dias de protesto, até que, em janeiro de 1956, a polícia prende Luther King Jr, sob o pretexto de que ele dirigia seu carro em alta velocidade.
A prisão do líder, solto poucos dias depois, gera ainda mais revolta e coesão no movimento negro. Em 30 de janeiro de 1956, o pastor discursava em uma reunião quando foi informado de que sua casa sofrera um atentado a bomba. Coretta e Yolanda saíram assustadas, mas não machucadas. E em questão de minutos centenas de negros, revoltados e armados, se reuniram em frente à casa de seu líder, prontos para reagir ao ataque. Mas Luther King Jr., adepto da não-violência, fez questão que todos retornassem a suas casas: “Devemos responder ao ódio com amor”, declarou, em uma de suas muitas frases que ficariam para a posteridade.
Em dezembro daquele ano, um alento: a Suprema Corte julga ilegal o regulamento segregacionista nos ônibus da cidade de Montgomery. Uma imensa vitória para Martin Luther King Jr, cujo nome ganha repercussão mundial e atrai simpatizantes para ações como o protesto contra a segregação em lanchonetes, a jornada pela liberdade, as manifestações pelos direitos civis, a grande marcha sobre Washington e a campanha de registro de eleitores. Era a continuidade da luta de Martin Luther King pelos direitos civis, sempre utilizando o caminho da paz como meio para modificar a realidade. Um revolucionário pacifista.
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