
Os princípios básicos do pacifista
OS ELEMENTOS de sua filosofia estão na autobiografia “A História de meus Experimentos com a Verdade” (Foto: Reprodução)
As profundas características pessoais que levaram Mohandas Karamchand Gandhi a se tornar um revolucionário pacifista, contribuindo decisivamente para a independência da Índia e para a transformação do Império Britânico em comunidade Britânica, podem ser resumidas em dois princípios básicos seguidos pelo líder indiano: “ahimsa” (não-violência) e “satyagraha” (a busca da verdade), valores da crença tradicional hindu.
Difundidos pelo mestre, esses preceitos serviram de inspiração a outros grandes líderes, como Martin Luther King e Nelson Mandela, e continuam cada vez mais necessários e instigantes, em meio ao mundo de contradições pessoais e sociais em que vivemos.
Tanto o ahimsa quanto o satyagraha são provenientes da sabedoria oriental - mais especificamente do Bhagavad Gita e pelas crenças hindus, budistas e janistas. Os elementos dessa filosofia são detalhados pelo próprio Mahatma, em sua autobiografia “A História de meus Experimentos com a Verdade”.
Ahimsa, cuja tradução literal é “evitar a dor (himsa)”, define o princípio essencial da não-violência. Para gandhi, trata-se da mais poderosa força do ser humano. Como conceito, invoca a não-violência e o respeito e reverência por toda forma de vida. A primeira menção a ahimsa na filosofia indiana provém dos Upanishads, escrituras hindus que remetem ao ano 800 a. C.
Gandhi foi justamente quem apresentou ao mundo ocidental o conceito de ahmisa. Além da citada influência sobre o movimento pacífico pelos direitos civis, liderado por Luther King Jr., o ahimsa passou a ser mais difundido no ocidente a partir do crescimento do interesse pela ioga e pela meditação.
Para o líder indiano, ahimsa traz conseqüências práticas para a vida cotidiana. Implica em evitar ofensas a qualquer pessoa, evitar o individualismo egocêntrico e a ação danosa mesmo àqueles considerados inimigos. Mostrando-lhes a verdadeira dimensão de ahimsa, o amor suplantará o ódio, e a vitória será da paz. Afinal, o caminho do pacifismo requer muito mais coragem que o da violência.
Como conseqüência do princípio de ahmisa, a conquista de vitórias contra um oponente por meio da não-violência se expressa no princípio denominado “satyagraha” - em uma tradução literal, “a busca (ou caminho, “graha”) da verdade (“satya”)”.
Trata-se da filosofia de resistência por meio da não-violência, empregada pelo Mahatma Gandhi contra o Império Britânico e, em outro momento histórico, também contra o apartheid na África do Sul.
Entre as traduções geralmente registradas para o emprego de satyagraha, estão desobediência civil, resistência passiva, força da verdade, protesto não-violento ou ainda a resistência a grande sofrimento pessoal, em prol de fazer o que é certo.
“Aplicando o satyagraha, descobri que, no início, o oponente deve ser desviado das atitudes erradas, por meio da paciência e da simpatia. Pois o que parece a verdade para um pode parecer a mentira para outro. E paciência implica sacrifício pessoal. Satyagraha implica não impor sacrifício a seu oponente, mas sim vencê-lo pelo nosso sacrifício.
A consciência da Paz na conquista da independência
GANDHI USOU da resistência pacífica para despertar nos indianos e no governo britânico a necessidade de uma Índia livre (Foto: Reprodução)
Em novembro de 1913, Gandhi foi preso novamente, após liderar uma marcha que reuniu mais de duas mil pessoas e uma greve que chegou a mobilizar 50 mil operários. Foi condenado a três meses de trabalhos forçados. Depois de liberto, conseguiu liderar os hindus em vitórias como a validação dos casamentos inter-raciais e o cancelamento de impostos abusivos.
A notícia das conquistas obtidas pelos hindus através da não-violência orientada por Gandhi chega à Índia, onde o governo britânico continuava dando as cartas e impondo uma série de dificuldades à vida do povo da colônia. A busca de independência por meio de um conflito armado vai aos poucos perdendo espaço para a reação não-violenta e para a desobediência civil, defendidas pelo Mahatma, que retorna a seu país natal em 1915, continuando a falar alto aos corações dos hindus e dos muçulmanos.
De volta à Índia em definitivo, Gandhi deixou de usar as roupas ocidentais, típicas de homens bem sucedidos profissional e financeiramente. Preferiu usar roupas como as dos mais pobres, feitas em casa (khadi), inclusive com tecidos de fabricação artesanal, incentivando que os outros fizessem o mesmo. Além do caráter de despojamento e humildade, tratava-se também de uma atitude política, capaz de causar prejuízos ao domínio inglês na indústria têxtil, inclusive com a exploração de trabalhadores indianos. O tear manual, símbolo dessa atitude de protesto, foi integrado à bandeira da Índia.
Gandhi passou, então, a exercer o papel de conscientizador da sociedade hindu e muçulmana na luta pacífica pela independência indiana, baseada no uso da não violência. O uso da não violência baseava-se na desobediência civil. Além disso, o Mahatma procurava elevar a auto-estima e o nível moral e cultural do povo indiano, sempre trabalhando em favor da inclusão social e abordando a consciência dos direitos e deveres de cada pessoa.
Em 1917, Gandhi é preso mais uma vez, por sua influência sobre os trabalhadores das tecelagens, que entraram em greve contra a exploração a que eram submetidos pelos ingleses. Durante a greve, o Mahatma entrou em greve de fome, ressaltando que seu jejum não tinha o objetivo de intimidar os ingleses, e sim de dar força aos trabalhadores, que acabaram por conseguir melhores salários.
Já em 1919, um ato do Império Britânico reduzindo as liberdades civis na Índia impõe novo desafio ao Mahatma. Gandhi pediu um dia de greve geral no País, mas o que se viu foi o estouro de focos de violência em várias localidades. Declarando haver cometido um ´erro de cálculo´, Gandhi acabou suspendendo a campanha. Já no ano seguinte, iniciou nova mobilização contra os impostos cobrados pelos ingleses aos camponeses indianos. Durante toda a década, seguem-se manifestações e viagens, com o grande líder conscientizando o povo sobre as possibilidades da desobediência civil e da não-violência.
Convicções expostas com o auxílio de imagens simples, como a dos cinco pontos, um para cada dedo de uma mão: igualdade para todos, amizade, respeito às mulheres, renúncia a álcool e outras drogas, unidade entre hindus e muçulmanos; amizade; e igualdade para as mulheres. Caminhos para uma série de vitórias como a de 1928, em Bardoli, quando uma campanha de Satyagraha conseguiu fazer com que os britânicos voltassem atrás em um aumento de impostos cobrados dos agricultores.
No mesmo ano, o Congresso da Índia discutiu a possibilidade de declarar guerra aos ingleses, pela independência do país asiático. Gandhi não apoiou a proposta, mas declarou que se a independência não viesse, em breve ele buscaria caminhos para conquistá-la. E assim fez. Em 1930, viajou à Inglaterra e avisou ao governo que se iniciaria uma grande manifestação de desobediência civil em massa. A lei do sal, que proibia os indianos de fabricarem o produto, obrigando-os a comprá-lo dos ingleses, foi outro motivo para o protesto.
Veio então a grande marcha para o mar, que durou mais de 24 dias e percorreu cerca de 200 milhas. Começou com o Mahatma tendo a seu lado menos de 100 pessoas, e terminou reunindo mais de 200 mil indianos na chegada a Bombaim. Milhares foram presos, abarrotando as cadeias, mas o movimento não retroagia.
Em março de 1931, um acordo entre Gandhi e Vice-rei britânico suspende a greve da desobediência civil. Os prisioneiros ganharam a liberdade e a produção de sal voltou a ser permitida na Índia. Fosse na Índia, fosse em visitas à Inglaterra, o Mahatma continuava pregando a convivência baseada no amor.
A trégua, porém, não duraria muito. No ano seguinte, fraudes em uma eleição levam Gandhi a nova greve de fome, e mais uma vez seu sacrifício pessoal ajuda a modificar a realidade. Os anos passam e, às portas do deflagrar da Segunda Guerra Mundial, o Mahatma conclama os judeus a defenderem seus direitos e os ingleses a usarem da não-violência contra a fúria expansionista de Adolf Hitler.
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